Educação

pandemia coronavírus

Reflexões de uma pandemia

100 dias! Na verdade, pouco mais que isso!

Dia 19 de março, 4a feira, estive na escola para as últimas arrumações antes de iniciar um período de isolamento social.

Desliguei o computador. Apaguei a lousa. Olhei ainda uma vez para as mesas, já sentindo falta dos alunos.

O silêncio no corredor era assustador. Não me lembro da escola tão quieta.

Imaginei 20, 30, 45 dias trancado em casa.

Estávamos todos assustados. Nossa geração não viveu nada semelhante. Fui para casa sem saber ao certo o que fazer, o que pensar, o que sentir.

Liguei a TV e assisti todos os jornais do dia. Eu precisava saber o que estava acontecendo no mundo. Alguém, em algum laboratório, haveria de encontrar rapidamente o remédio adequado, a vacina que nos protegeria do vírus que se espalhava sorrateiro.

Fiquei assustado com os números.

Olhei ao redor de mim e comecei a imaginar os dias, talvez semanas, seguintes. Não imaginei que seriam meses.

Fui para cozinha e abri os armários. Contei os sacos de arroz, feijão e farofa. Imaginei quanto tempo durariam. Fui ao banheiro e contei também os suprimentos.

Voltei para a sala e arrumei o o local de trabalho. Computador, caderno, canetas… Ali seria o local de onde conduziria as aulas nos próximos dias.

Liguei o computador em busca de notícias na internet. Mais números assustadores. Pareciam cenas de filmes de ficção científica sobre pandemias. Gráficos com pontos coloridos que aumentavam de tamanho em todos os continentes. Não conseguia acreditar que era realidade.

Anoiteceu, chegou a madrugada, minha mente não conseguia desligar… Quase não dormi.

Ao acordar, olhei a luz que entrava pela persiana e torci para que tudo tivesse sido um pesadelo. Não era.

No sábado fui ao supermercado e comprei mais alguns pacotes de comida, imaginando que precisaria cozinhar por até 45 dias. Comprei o que achei suficiente. Estava preocupado com a falta de verduras frescas.

Descobri que o Ceasa entregaria em casa e fiquei satisfeito! Comprei maços de couve, espinafre e cebolinha para congelar, cebola, beterrabas, cenouras… Pronto! Fibras frescas garantidas!

Comecei a comprar outros suprimentos também pela internet.

O tempo passou. Os números iniciais, então assustadores, se tornaram lembranças do passado.

Certa noite, assisti ao filme Perdido em Marte. O personagem de Matt Damon plantou batatas em solo marciano e produziu seu próprio alimento por algum tempo. As verduras frescas estavam acabando. Talvez eu pudesse fazer o mesmo. Olhei mais uma vez ao meu redor, arrastei uma mesa para perto da janela, coloquei sobre ela algumas bacias, reuni vasos e potes plásticos, misturei em outra bacia o solo de alguns vasos que tinha com violetas e crisântemos… preparei tudo para minha horta indoor. Busquei na internet informações sobre a hortaliça mais adequada. Comprei sementes de couve, rabanete, beterraba, agrião, manjericão e espinafre. Ao longo da semana seguinte plantei todas as sementes!

Enquanto isso, as aulas virtuais foram se aprimorando. O que era para ser temporário, se tornou mais que isso. Curadoria de material na web, produção de videoaulas, novas estratégias, novos recursos… A sala de aula mudou, muito!

Aulas síncronas, aulas assíncronas, leitura de imagens, investigações em casa, fórum, conferência… Zoom! Captura de imagens, edição de imagens, upload de vídeo para o Youtube, roteiro de gravação, roteiro de aula. O conjunto de habilidades necessárias foi se aprimorando.

Ambiente virtual de aprendizagem, software de captura e edição de vídeo, plataformas para criação de jogos, plataformas para criação de videoaulas mais dinâmicas.

Eu, que já gostava de usar ferramentas tecnológicas nas aulas presenciais, aprendi a ser um professor totalmente virtual.

Sinto saudades dos alunos! Sinto saudades das brincadeiras em classe. Sinto saudades de seu barulho!

Os dias passaram, as semanas passaram, os meses passaram, o semestre passou!

As sementes germinaram. Colhi um rabanete! A couve não se desenvolveu. O agrião também não. Os rabanetes e beterrabas fornecem folhas para o jantar todas as noites! O vaso com espinafre torna verde a sopa das noites frias. O manjericão enriquece o sabor das sopas e pães que tenho feito.

Olho agora ao redor e planejo arrumar a bagunça acumulada.

Penso nas últimas palavras de minha mãe, na última vez que a vi e pude beijá-la. Sinto saudades. A verei em outra dimensão.

Deixei de ler notícias assustadoras. Procuro focar naquelas que trazem alguma esperança. Remédios, vacinas, tratamentos. Eles chegarão. Até lá, cabe a nós fazer a nossa parte, usar máscaras e manter distância dos outros. Estamos aprendendo ainda a lidar com o desafio.

A Ciência se tornou a principal esperança de todos nós.

Enquanto isso, em casa, reflito sobre a vida.

Antes de ser professor fui guia em viagens de ecoturismo e estudo do meio. Todas as semanas estava em algum lugar do Brasil, com crianças de 7 a 70 anos, explorando regiões preservadas com o objetivo de contemplar a natureza, explorando novos locais e despertando em cada um o interesse pelo mundo natural. Nosso planeta é maravilhoso! Montanhas, florestas, praias, cavernas…

Agora, trancado no apartamento, imagino o que se passa na mente de cada ser humano ao redor do planeta. Espero que o tempo de reflexão forçada esteja mudando as pessoas. Me provoca grande sofrimento saber de espécies que desaparecem, florestas sendo queimadas, oceanos sendo poluídos… O que estamos fazendo?

Enquanto a Ciência é nossa maior esperança para vencer a pandemia, a educação é nossa maior esperança para salvar a humanidade de si mesma.

A educação é a maneira pela qual podemos contribuir para formar pessoas capazes de lidar com os desafios da humanidade ao fazer escolhas e realizar ações em busca de suas demandas.

É preciso encantar as novas gerações com a beleza do Universo, com a beleza de cada recanto e cada elemento de nosso planeta. O pequeno e pálido ponto azul, nas palavras de Carl Sagan, que aparece na fotografia tirada pela sonda espacial Voyager, é nossa casa.

Por muito tempo, temos retirado do planeta tudo aquilo que desejamos. Porém, nunca antes a fábula da “galinha dos ovos de ouro” foi tão real. Estamos matando a galinha! O problema é que a galinha é o único planeta conhecido em que podemos viver! Se ele morrer, todos morremos!

Acho difícil mudar a cabeça de tantas pessoas que estão fazendo coisas erradas e destruindo o planeta. Mas acho possível conquistar as crianças, capacitá-las e motivá-las para que busquem o caminho do equilíbrio em nosso futuro próximo.

Encantar-se com o Universo, observá-lo, explorá-lo, investigá-lo, descrevê-lo, explicá-lo na medida do possível, buscar perguntas ainda não respondidas… ou ainda não feitas.

Transformar inquietações da curiosidade em perguntas a serem investigadas. Elaborar perguntas investigáveis, elaborar hipóteses, planejar e conduzir investigações escolhendo as estratégias mais adequadas, analisar dados, argumentar baseado em evidências, elaborar conclusões… Comunicar as descobertas.

Aplicar o conhecimento e experiência adquiridos para enfrentar desafios reais que dificultam a existência humana em condições dignas.

Compartilhar conhecimentos para encantar mais pessoas e auxiliá-las a enfrentar seus desafios.

Precisamos de uma educação que estimule o interesse e o desejo de cuidar do planeta!

Cabe a nós formar formar indivíduos competentemente conscientes, motivados e capazes de agir em busca de um mundo melhor.

O Brasil precisa de uma geração de jovens cientistas motivados, engajados, capacitados para transformar a sociedade e o país!

Cabe a nós educadores, formais ou não, contribuir para a formação de uma sociedade crítica, analítica, capaz de olhar para desafios do presente, embasar-se nos conhecimentos do passado e planejar ações efetivas para construir um mundo melhor.

Não podemos prever o futuro, mas podemos construí-lo com nossas escolhas e ações no presente.

Paulo Freire já dizia que a educação não muda o mundo, ela muda as pessoas. As pessoas sim mudarão o mundo!

Sozinho não posso fazer muita coisa diante de desafios algumas vezes assustadores. Mas posso cativar, capacitar, mobilizar meus alunos de modo que eles descubram seu potencial para mudar o mundo e, juntos, participem de tal tarefa.

Acredito realmente que a educação pode contribuir para desenvolver em cada indivíduo, não apenas o pensamento científico, crítico e estratégico, mas também a vontade de usar todos os seus recursos para mudar o mundo.

Sou apenas um professor, mas posso posso ser “mais um”!

Até o próximo texto.

Abraços.

Carlos Eduardo Godoy.

o que é estudo do meio

Estudos do meio & Conscientização ambiental

A humanidade enfrenta provavelmente o maior desafio desde sua origem: Sobreviver às consequências de suas próprias ações! Nesse contexto, a educação é sua maior chance de vencer!

Não lutamos mais contra predadores vorazes que nos perseguem e ameaçam nossa sobrevivência para que eles próprios possam sobreviver. Tais predadores foram dizimados por nós, que um dia fomos suas presas.

Muito mais que exterminar aqueles que um dia nos ameaçaram, exterminamos também aqueles que nos alimentaram e forneceram recursos essenciais para chegarmos até aqui. Animais, vegetais, fungos e diversos microrganismos potencialmente úteis para a humanidade desaparecem semana a semana. Até mesmo espécies ainda não conhecidas estão sendo extintas.

Extinção é para sempre! Sinto profundo pesar cada vez que uma espécie é considerada extinta, ou está em vias de desaparecer. Sinto-me culpado.

O sucesso de nossa espécie representa o fracasso do planeta. Há um preço para tal sucesso!

Assim como todo ser vivo, necessitamos de energia e matéria-prima para crescer e completar nosso ciclo de vida. 

Mais que o alimento diário, nosso modo de vida atual demanda diversos outros recursos naturais utilizados para construir, fabricar, toda a vasta gama de artefatos característicos da sociedade moderna. Desejamos conforto e melhor qualidade de vida. Para isso destruímos o planeta.

Extraímos do ambiente tudo aquilo que julgamos necessário para suprir nossas necessidades. Tiramos do planeta. Tiramos de outros seres vivos. Pegamos aquilo que consideramos nosso, sem levar em consideração que todos os outros seres vivos que habitam a Terra necessitam dos mesmos recursos. Na verdade, eles são grande parte dos recursos que utilizamos.

Assim, a humanidade se torna cada vez mais “bem sucedida”!

É preciso desenvolver nas pessoas a consciência de que cada uma de nossas ações certamente gera consequências em diversos locais do planeta, afetando toda sorte de seres vivos. Os próprios seres humanos são os mais impactados negativamente.

Tendo isso em mente, podemos fazer escolhas! Preciso realmente comprar isso? Sendo essencial, o que é possível fazer para minimizar o impacto ambiental? Comprar em menor quantidade? Comprar de outra marca? Pedir emprestado a alguém? Emprestar a alguém que também precise? 

Certamente há muitas coisas que podem ser feitas!  

Quanto maior o grau de consciência das pessoas, melhores serão suas escolhas.

A educação pode contribuir para isso!

Ao colocar estudantes diante de situações-problema reais, em que eles investigam contextos, personagens, causas, consequências e possíveis estratégias para a solução, estamos contribuindo para aumentar o grau de consciência das novas gerações.

Estudos do meio são por excelência uma estratégia que pode dar conta disso! Conhecer novos locais, seus habitantes, sua história e seus desafios amplia a biblioteca cultural dos jovens, tornando-os mais preparados para interpretar o mundo.

A cada situação-problema investigada, outras habilidades e competências são desenvolvidas, novas experiências se acumulam e a consciência da realidade torna-se mais ampla e profunda.

Trabalhar em grupos contribui para o estabelecimento de relações mais produtivas e saudáveis entre as crianças. Empatia, comunicação e cooperação são desenvolvidas. 

Explorar e investigar o funcionamento do planeta, seus elementos e as relações entre eles, torna-o muito mais interessante. Mais que estudar e aprender, é conhecer e se apaixonar pelo conhecimento. 

A relação com o aprender, investigar e buscar conhecimento torna-se mais forte e significativa. 

A humanidade precisa de pessoas capazes de observar o mundo, identificar questões a serem investigadas ou desafios a serem enfrentados, e tomar para si a responsabilidade por ações capazes de ajudar!

O planeta Terra precisa de pessoas que compreendam os delicados mecanismos do equilíbrio ambiental e tomem decisões responsáveis em relação ao uso do espaço e dos recursos naturais.

É possível! É necessário! É essencial!

São apenas algumas reflexões.

Carlos Eduardo Godoy.

jogo de memória

Usando ferramentas tecnológicas e mapas conceituais na sala de aula

Brincadeira? Ferramenta pedagógica? Ou ambos?

Ao longo dos últimos dias publiquei alguns “jogos de memória” aqui no Blog.

Em cada um deles o nível de dificuldade era um pouco diferente, exigindo do jogador lembrar-se de duplas de cartas com as seguintes características:

  • Nível I – 2 cartas iguais, com imagem do animal em que ele é facilmente reconhecido;
  • Nível II – 1 carta com imagem do animal em que ele é facilmente reconhecido e 1 carta com o nome do animal;
  • Nível III – 1 carta com imagem de uma parte do animal e 1 carta com o nome da estrutura representada e nome do animal;
  • Nível IV – 1 carta com imagem de parte do animal e 1 carta com informações sobre o animal, mas sem seu nome.

Tais jogos podem ser utilizados apenas como brincadeira, para testar os conhecimentos sobre o reino animal e a capacidade de memorizar as posições das cartas. Porém, também podem ser utilizados como parte de uma sequência didática dinâmica, com momentos lúdicos e momentos mais formais, com atividades individuais e com atividades em grupo nas quais ocorre intensa argumentação e negociação de significados entre os estudantes.

Aprofundando tal reflexão, decidi elaborar um exemplo de sequência didática na qual um jogo de memória aparentemente simples assume papel fundamental. Criei esse jogo com 18 pares de cartas e a estrutura baseada em um Ambiente Virtual de Aprendizagem.

Segue abaixo uma síntese de tal sequência didática:

  • Etapa 1 – Os alunos recebem como lição de casa preparatória (Flipped Classroom) a tarefa de ler textos (notícias/reportagens) sobre a situação climática atual do planeta. A leitura deve ser feita de forma crítica, analítica, identificando o meio em que o texto foi publicado, autor, público-alvo, ideias centrais, fatos, opiniões, causas e consequências. Tais informações devem ser registradas no caderno. Os links para os textos estão publicados no Ambiente Virtual de Aprendizagem.
  • Etapa 2 – Em classe, utilizando quaisquer meios de acesso à internet (smartphones, tablets, chromebooks ou notebooks), os alunos são estimulados a jogar (individualmente) um jogo de memória criado especialmente para a atividade, com conceitos importantes para a compreensão do tema estudado. O jogo tem 18 conceitos selecionados pelo professor. Cada conceito é apresentado por meio de uma carta com imagem e outra carta com um breve texto. Cada vez que o aluno inicia o jogo são carregados 8 pares de cartas aleatoriamente. Assim, é bastante difícil que um mesmo aluno tenha acesso a todos os 18 conceitos, a não ser que jogue muitas vezes. Em cada pareamento correto deve-se registrar a imagem do conceito (ou nome) e sua definição. (O jogo pode ser experimentado no final desse texto).
  • Etapa 3 – Após a etapa individual, formam-se trios de alunos que irão compartilhar suas descobertas (conceitos identificados no jogo) e argumentar a respeito de cada conceito, retomando também as informações da leitura prévia realizada como lição de casa (Flipped classroom). O resultado da etapa de argumentação deve ser apresentado na forma de um mapa conceitual em que são estabelecidas possíveis relações entre cada conceito. O mapa conceitual pode ser elaborado no caderno de cada estudante ou em alguma ferramenta como o software CmapTools (Nesse caso ele pode ser impresso e colado no caderno posteriormente). 
  • Etapa 4 – Após cada trio ter elaborado seu próprio mapa conceitual, o professor media a construção de um mapa conceitual colaborativo da classe, construído com a participação do maior número possível de trios, ou de alunos. Durante essa etapa ocorre intensa argumentação entre os alunos, cada qual defendendo a relação que estabeleceu e contribuindo para a construção do conhecimento coletivo. Esse mapa conceitual representa a síntese das descobertas, aprendizagens ou opiniões da classe. O mapa conceitual final pode ser feito na lousa, com participação direta dos alunos, ou em algum software no computador utilizado no projetor da classe. Tanto um como outro podem ser também disponibilizados aos alunos no ambiente virtual de aprendizagem utilizado na escola.
  • Etapa 5 – Logo em seguida, pode-se aplicar uma quiz para verificar os resultados da sequência didática, seja como avaliação formativa, ou como avaliação somativa.

Costumo aplicar esse tipo de sequência didática frequentemente, com a participação dos alunos em diversos momentos, interagindo uns com os outros e utilizando as mais diversas ferramentas tecnológicas, muitas gratuitas, como ferramentas de produtividade pessoal. 

Acredito que sequências didáticas com tais características podem contribuir para tornar a aprendizagem mais dinâmica e significativa, mesclando diversas situações de aprendizagem com objetivos diferentes e complementares. 

Ao final do processo certamente houve a aquisição de novos conceitos e o desenvolvimento de habilidades e competências essenciais para lidar com os desafios da sociedade moderna. Essas são algumas características das chamadas Metodologias Ativas.

Não afirmo que seja simples, fácil e rápido preparar o material necessário. Porém, acredito que realmente vale a pena!

Abraços.

Carlos Eduardo Godoy (Prof. Amparo)

Importante No exemplo a seguir os textos dentro das cartas estão muito pequenos! Vou substituí-los. Até lá, ficam como exemplo do que é possível fazer com esse tipo de ferramenta.

Jogo de memória – Mudanças climáticas

Gostou? Quer outros desafios?

Semanalmente serão publicados novos jogos digitais com imagens de elementos da natureza. Clique aqui para ver os outros já publicados!

Como observar a germinação de sementes I

Caro professor.

O tutorial a seguir explica de maneira simples e visual como montar uma atividade para observar a germinação de sementes de feijão.

É possível visualizar as etapas iniciais do desenvolvimento da jovem planta, desde o surgimento das primeiras raízes até o surgimento das primeiras folhas.

Experimente!

Abraços.

Carlos Eduardo Godoy.

Como germinar FEIJÃO

Entrevista Revista Nova Escola 2002 Carlos Eduardo Godoy

Ser professor – Entrevista para a Revista Nova Escola em 2002

Carlos Eduardo Godoy

O que é “Ser professor”?

Hoje, ao arrumar papeis acumulados ao longo do tempo, encontrei uma Revista Nova Escola de 2002. Uma edição do mês de outubro com depoimentos de professores sobre o que é “Ser professor!”

Passaram-se mais de 15 anos, mas ainda me lembro dos detalhes da entrevista, da conversa com a repórter. Senti-me orgulhoso e feliz por ter escolhido tal carreira! Assim como me sinto ainda hoje!

Sou grato aos personagens desse caminho por tudo que aprendi! Sou especialmente grato aos meus alunos e ex-alunos por tudo que ensinaram!

Ser professor é conviver com desafios diários apresentados por crianças ávidas por conhecer e compreender o mundo. Juntos exploramos, investigamos, estudamos os fenômenos que nos cercam e buscamos respostas para perguntas até então não percebidas. Quando o interesse pelo mundo ao redor é despertado, olhos, ouvidos, narizes… mãos tornam-se instrumentos de investigação em busca de dados para tentar explicar as coisas.

Os recursos são outros, mas a essência do “ser professor” continua a mesma! Hoje tenho lousa digital, LMS (Canvas/Instructure), videoaulas, chromebooks, smartphones e diversas outras ferramentas de produtividade para alunos e professores que nos permitem ir muito além da sala de aula.

Em 2002 eu enviava boletins eletrônicos (e-mails) com curiosidades sobre as Ciências da Natureza. Hoje tenho blog, página no Facebook, canal no Youtube, galerias de fotos didáticas no Flickr, Instagram e Pinterest e diversas estratégias para levar as aulas para qualquer lugar e ao mesmo tempo levar o mundo para dentro da sala de aula.

A tecnologia está transformando nossa maneira de viver! A sociedade está mudando, as pessoas estão mudando, as escolas e alunos estão mudando… É preciso acompanhar tais mudanças!

Em meio a tantas e profundas mudanças, a tantos novos desafios que surgem, o professor continua sendo aquele “aprende ao criar situações de aprendizagem para seus alunos e vivenciá-las junto deles”.

Ser professor é aprender diariamente… Tenho orgulho de ser professor!

Sinto-me útil!

 

Metodologias ativas

Metodologias ativas – O que são?

Metodologias ativas

Talvez essa seja uma das expressões mais usadas em textos sobre educação nos últimos tempos. Muitos falam disso! Mas o que são as tais metodologias ativas?

Vamos tentar buscar em nossas próprias memórias a resposta a essa pergunta.

Tente se lembrar de sua vida de estudante! Vá longe, até a escola primária, e volte aos poucos até o presente. Busque memórias das aulas dos primeiros anos de escola e chegue até a graduação e pós-graduação. Tente se lembrar das aulas que mais o(a) motivaram, em que o tempo passou rápido e você não queria que tivessem acabado. Busque também identificar aquelas que deram sono, em que o tempo não passava.

O que as diferencia? O que as caracteriza?

É muito provável que as aulas chatas fossem aquelas em que o professor falava sem parar e você apenas ouvia, imóvel em sua carteira, com a obrigação de anotar tudo. Talvez o assunto fosse chato. Talvez o assunto fosse atraente, mas não desse jeito.

Por outro lado, as aulas interessantes provavelmente foram aquelas em que o professor de alguma maneira o(a) convidava a “pensar e agir”. Ao invés de apenas “ouvir aulas longas e intermináveis”, copiando a matéria da lousa, agora você era atuante e precisava realizar tarefas em que percebia significado e razão de ser. Mesmo sentados na tradicional disposição de uma sala de aula, algumas delas eram capazes de fazê-lo(a) refletir, entrar em conflito com as próprias ideias, buscar estratégias para enfrentar desafios, relacionar o tema de estudo com a própria vida… Ter vontade de seguir as instruções!

Isso é assim até hoje! Ainda existem aulas chatas, e também existem aulas dinâmicas e motivadoras.

Novidades?

Todos temos lembranças agradáveis de professores que tornavam suas aulas inesquecíveis! Eram momentos efêmeros, ainda que durassem toda uma manhã.

Provavelmente eram educadores que já aplicavam em suas aulas estratégias em que a aprendizagem era resultado do fazer do aluno. Talvez não tivessem consciência do quanto suas escolhas metodológicas faziam diferença na motivação das crianças. Ou, ao pensar em seu fazer de professor, se colocavam no papel do aluno e buscavam avidamente planejar atividades que tornassem as aulas momentos desejados e aguardados com ansiedade.

Tenho certeza de que todos tivemos professores assim!

O que mudou? Será que ocorreram grandes mudanças?

Atualmente os professores podem utilizar maior quantidade e diversidade de recursos antes inexistentes. Com os avanços da tecnologia, o professor tem uma verdadeira caixa de ferramentas à sua disposição! Porém, precisa saber o que fazer com elas.

Também temos maior consciência e conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro, desde os mecanismos de captação de estímulos até os processos de formação de memórias.

Novas ferramentas e conhecimentos devem servir ao professor como subsídio para suas escolhas e ações.

Princípios e estratégias comuns nas metodologias ativas

Atualmente há muitos pesquisadores que investigam a educação, como se dá a aprendizagem, a relação entre as diversas estratégias e seus resultados… e muito mais. A pesquisa acadêmica olha com cuidado para cada detalhe da sala de aula e busca compreender as minúcias da interação aluno-professor e como isso afeta a aprendizagem.

O resultado de tais pesquisas é que hoje podemos identificar diferentes estratégias/abordagens educacionais que, se adequadamente aplicadas, podem contribuir para motivar estudantes e engajálos no processo de aprendizagem. Em comum, todas elas colocam o aluno como protagonista ao longo do processo.

É lógico que ainda existem aulas expositivas e seria leviandade torná-las vilãs. Na verdade elas são essenciais em diversos momentos. Porém, ao pensar em sequências didáticas e cursos como um todo, aulas expositivas e aulas mais dinâmicas e ativas são colocadas lado a lado como componentes importantes no percurso planejado.

Metodologias ativas

E o professor?

O professor não pode ignorar que seus alunos chegam à sala de aula cada vez com maior quantidade de conhecimentos conceituais adquiridos “por conta própria”, em canais de documentários, no youtube ou outras fontes. Assim, atuar como fonte de informações (conhecimento) não é um papel capaz de garantir o engajamento em suas aulas.

É preciso mudar de posição, “saindo do palco e caminhando em meio à plateia.”

O papel do professor deve ser muito mais de mediador no processo de aprendizagem, acompanhando seus alunos e orientando-os em seu percurso.

O professor deve ser um estrategista que analisa o cenário a todo instante, avaliando suas estratégias e reorientando suas ações de modo a garantir o máximo envolvimento e aproveitamento dos alunos.

Para isso ele deve ter sempre “cartas na manga”, na forma de materiais e estratégias adequados a cada novo desafio que surge.

Nesse contexto a formação continuada é essencial!

Metodologias ativas

Definição

Metodologias ativas são estratégias educacionais que colocam o aluno como protagonista em seu percurso de aprendizagem. O professor deixa de ser apenas um transmissor de informações para ser um mediador no processo em que o aluno desenvolve novas habilidades, competências e os conteúdos conceituais tradicionais.

Alguns ganhos com as metodologias ativas

Não tenho dúvidas de que colocar o aluno para trabalhar, de forma planejada e orientada, contribui para o desenvolvimento de diversas habilidades e competências que em aulas expositivas não são exigidas.

As metodologias ativas certamente contribuem para tornar o estudante melhor preparado para a vida real, pois situações corriqueiras na vida profissional são enfrentadas ao longo de sua vida escolar. Ferramentas e técnicas essenciais nas mais diversas áreas farão parte de sua bagagem pessoal.

O protagonismo o torna mais confiante em seu próprio potencial e aumenta o grau de satisfação com as aulas, professor e escola.

Finalizando

Recomendo que você leia também os artigos sobre Flipped Classroom, Ensino Híbrido e Sequência Didática, nos quais são apresentados alguns exemplos dos princípios aqui mencionados.

Pense a respeito.

Abraços.

Carlos Eduardo Godoy (Prof. Amparo).

DICAS DE LIVROS SOBRE METODOLOGIAS ATIVAS

“O que eu ouço, eu esqueço; o que eu vejo, eu lembro; o que eu faço, eu compreendo”

Confúcio.

O que é Ensino Hibrido

Ensino Híbrido – O que é?

Ensino Híbrido

Ao longo dos últimos meses tem se falado muito de Ensino Híbrido. O que é isso?

Buscando nos dicionários o significado de “híbrido”, é possível encontrar definições próximas de:

  • Originário da mistura de diferentes…
  • Resultado do cruzamento de diferentes…
  • Aquele que apresenta características de diferentes…

Por outro lado, ao buscar o significado de “ensino”, encontramos algo como:

  • Forma sistemática de transmissão de conhecimentos.
  • Ação e efeito de ensinar.
  • Conjunto de estratégias e ações realizadas com o objetivo de ensinar.

O que podemos inferir é que o Ensino Híbrido apresenta características de diferentes estratégias, ou modelos, de ensino:

  1. A tradicional, presencial, que ocorre tipicamente em sala de aula;
  2. A online, virtual, que ocorre mediada por recursos tecnológicos diversos de modo que professor e aluno podem estar em locais, e/ou momentos, diferentes durante o processo de ensino/aprendizagem.

Ensino Hibrido 01É possível afirmar que o Ensino Híbrido busca o que há de melhor, ou mais adequado para um certo contexto educativo, das duas estratégias.

Uma vez que temos dois extremos, híbrido é aquilo que está entre eles. Sendo assim, há uma gradação possível de estratégias na qual em certo momento estamos mais próximos do ensino presencial e em outros momentos estamos mais próximos do ensino totalmente virtual (Exemplo: Cursos na Udemy). A estratégia, ou modelo de aula, escolhida pode variar de acordo com o material disponível, com os espaços de trabalho disponíveis ou com as características do grupo de alunos.

Segundo pesquisadores americanos, o importante para se caracterizar como ensino híbrido é que ocorram momentos de trabalho presencial, na escola, e momentos de trabalho virtual mediado por algum elemento de controle do processo do aluno (Sistema de Gestão de Aprendizagem – LMS).

Porém, ao estudar a viabilidade de aplicação  da metodologia em nossas escolas, pesquisadores brasileiros perceberam que nosso contexto pode apresentar dificuldade de acesso à web e recursos mais sofisticados. Esse fator não poderia ser obstáculo à inovação e busca por melhorias na educação. Assim, focaram na busca por estratégias e uso de recursos de forma inovadora, mesmo que sem acesso ao virtual. (Ver Lilian Bacich em http://info.geekie.com.br/ensino-hibrido-tecnologia/ ).

Ensino Híbrido 02Características do Ensino Híbrido

A diversidade de situações possíveis torna o curso mais dinâmico, interessante, envolvente e participativo. Há momentos individuais e em grupo. Há momentos presenciais e online. Ocorrem rotações entre as atividades, na mesma sala ou entre diferentes espaços. Em certos momentos os alunos escolhem suas atividades. Estuda-se mais em casa e trabalha-se mais em classe. Há mais momentos de ação, de argumentação, de produção!

O estudante deve ser o protagonista no processo e aprender dinamicamente, enfrentando desafios, refletindo sobre estratégias de atuação possíveis, interagindo com seus pares, coletando e analisando dados, interpretando, argumentando, produzindo e compartilhando conteúdos em formatos variados, aprendendo conceitos e desenvolvendo habilidades e competências!

Importância do LMS

Como professor do Ensino Fundamental II, mais precisamente do 6º ano, utilizo diversas estratégias e ferramentas com o objetivo de potencializar a participação do aluno e seu envolvimento no processo de ensino aprendizagem. Em cada momento do curso trabalhamos com recursos que nos permitem realizar tarefas de forma mais eficiente e com melhor qualidade. A tecnologia é uma ferramenta de trabalho e não um fim.

Tal processo é mediado com o auxílio de um LMS (Learning Management System ou Sistema de Gestão de Aprendizagem) que organiza o percurso de aprendizagem. Atualmente utilizo o Canvas LMS, um fantástico ambiente virtual de aprendizagem que possibilita ao professor:

  • Publicar os documentos essenciais de seu curso;
  • Publicar materiais didáticos multimídia – videoaulas, textos de apoio, links externos;
  • Publicar instruções detalhadas para atividades, de forma estruturada e amigável;
  • Realizar avaliações formativas e/ou somativas;
  • Acompanhar o percurso de aprendizagem de cada aluno, identificando mais facilmente seus passos, suas dificuldades e realizações;
  • Interagir com os alunos para solucionar eventuais dúvidas;
  • Oferecer aos alunos diferentes materiais, atividades e caminhos de aprendizagem possíveis de acordo com seu progresso, suas dificuldades ou perfis de aprendizagem;
  • Planejar e organizar seu curso, suas aulas, suas atividades utilizando diversas ferramentas de forma integrada.

Certamente há benefícios para professor e aluno!

A escola no bolso de todos nós

O smartphone que todos carregam no bolso é uma caixa de ferramentas, um verdadeiro canivete suíço, capaz de realizar muitas tarefas, das mais simples às mais complexas. É possível produzir, editar e compartilhar conteúdo com o mundo em questão de minutos!

Não há mais as barreiras espaciais e temporais de uma aula. O aluno pode acessar o material de seu curso a partir de qualquer local com internet disponível. Ele pode fazer isso em qualquer hora do dia!  A sala de aula está dentro do smartphone. O mundo está dentro do smartphone!

O smartphone é o instrumento mais versátil para os usuários do Ensino Híbrido!

Importância do Ensino Híbrido

As aprendizagens resultantes (Ideias, habilidades e competências) de um curso que utiliza tal conjunto de recursos tecnológicos tornam-se realmente aplicáveis na vida real, principalmente no momento em que a evolução científica/tecnológica transforma nosso cotidiano cada vez mais intensamente e rapidamente.

O mundo mudou. O mundo está mudando. O mundo continuará mudando!

Neste contexto o Ensino Híbrido torna-se essencial, pois habilidades e competências ligadas ao uso de recursos tecnológicos como ferramenta de produtividade pessoal não são mais um luxo ou modismo. São pré-requisitos para todas as carreiras!

O Professor Híbrido

E o professor? Ele é um personagem essencial no planejamento, organização e realização de situações de aprendizagem adequadas ao novo contexto!

É ele quem escolhe abordagens, estratégias e ferramentas, prepara ou seleciona materiais de apoio, elabora sequências didáticas e atividades, conduz o processo presencial e/ou virtualmente, avalia o percurso e a aprendizagem do aluno.

Ele precisa ter tempo e condições para dar conta de todas as tarefas que suportam um curso híbrido!

O professor precisa estudar e se aprimorar continuamente, buscando conhecer novas ferramentas (hardware e software) e estratégias didáticas. Esta é uma tarefa árdua, pois o cotidiano do educador é naturalmente intenso.

Pessoalmente, uma vez que nem sempre cursos presenciais ocorrem em momentos favoráveis do calendário, busco ler muito e fazer cursos online. Também procuro acompanhar blogs e grupos de discussão relacionados ao tema.

Finalizando

Recomendo que você leia também o artigo sobre Flipped Classroom. Nele é apresentada uma sequência didática bastante simples, mas que leva em consideração algumas das ideias aqui apresentadas.

Outro artigo recomendado é “O que é Sequência Didática“, no qual são apresentados os princípios da elaboração de sequências didáticas e atividades como aquelas mencionadas aqui.

Por fim, caso você deseje aprender os princípios da produção de videoaulas e edição de vídeos com finalidades didáticas, sugiro que se inscreva no curso “Como criar videoaulas e editar vídeos” elaborado por mim na plataforma de cursos Udemy. Ele é um exemplo de curso totalmente virtual, praticamente sem interação com o instrutor.  O aluno segue seu próprio caminho, com videoaulas e instruções detalhadas, além de exercícios de aplicação do aprendizado criando suas videoaulas.

Pense a respeito.

Abraços.

Carlos Eduardo Godoy (Prof. Amparo).

DICAS DE LIVROS SOBRE ENSINO HÍBRIDO