Aprendendo e ensinando Ciências da Natureza

Aprendi Ciências desde criança, quando meus pais, tios e avós me incentivavam a brincar na enxurrada barrenta que se formava nas fortes chuvas, ou ainda quando passávamos a noite observando estrelas no céu de Amparo, ainda pouco ofuscado pelas luzes artificiais da cidade na época.

Também aprendi muito nas pescarias de infância, desde o momento em escavava o solo em busca de minhocas até as horas passadas na beira do lago observando um martim-pescador em busca de comida, galinhas d’água, insetos aquáticos, cobras d’água e os peixes que mordiam a isca. Aprendi sobre o vento ao fazer pipas com papel de seda e bambu e empiná-las no local em que os ventos batiam no morro e subiam verticalmente até muito alto.

Tudo era motivo para fazer perguntas aos mais velhos e buscar as respostas onde fosse possível! Desde cedo aprendi a ler enciclopédias e devorar muito mais que apenas as respostas às dúvidas iniciais.

Aprendi vivenciando cada momento de minha vida e perguntando: O que é isso? O que está acontecendo? Como se formou? O que acontecerá agora?

Comecei a ensinar Ciências respondendo às perguntas de irmãos, primos e amigos.

Formalmente, meus primeiros passos como professor foram atuando como monitor de viagens de Estudo do Meio, orientando estudantes em suas explorações na Ilha do Cardoso ainda na década de 1980. Lembro-me de cada passo naquelas praias e trilhas desertas acompanhado de crianças maravilhadas com os botos, com o inexplorado, com a aventura de explorar a natureza.

A professora Nícia Wendel de Magalhães, então diretora da ECO Associação para Estudos do Ambiente, começava a organizar esse tipo de viagens e eu, ainda aluno no curso de Ciências Biológicas no IBUSP, me candidatei para ser monitor em estudos do meio. Tínhamos o objetivo claro de sensibilizar as crianças para a importância da preservação.

Ao longo do tempo essa estratégia evoluiu bastante e hoje em dia, em viagens de estudo do meio, os estudantes são colocados em situações de trabalho muito semelhantes àquelas que verdadeiros cientistas vivenciam.

De qualquer maneira, minha formação foi grandemente influenciada por essas viagens! Sou grato à Nícia pelo incentivo!

Muitos organismos que conheci na faculdade imersos em formol (Velelas, Caravelas e Renilas por exemplo) estavam agora diante de mim vivos e pulsantes! A mata atlântica exuberante, as praias pouco pisadas pelo ser humano, noites ainda escuras pela ausência de luz elétrica…. Minha formação naturalista se completava a cada viagem!

Organismos que ainda não tinha visto, fenômenos também desconhecidos… Perguntas inesperadas! Eu era aprendiz junto com “meus alunos”. A volta para São Paulo e para a universidade era a oportunidade de perguntar aos meus professores, aos colegas mais experientes e aos livros (ainda não havia internet), o que significava aquele comportamento em tal animal, aquela estrutura estranha na planta, aquela luz piscante na água durante a noite.

Cada viagem era momento de novas aventuras, novas descobertas, novas aprendizagens!

Algum tempo depois, junto com amigos da faculdade, montei a própria empresa de viagens especializada em estudos do meio. Éramos um grupo de jovens biólogos com muita vontade de viajar pelo país e conhecer áreas ainda pouco exploradas. Organizar viagens de estudo do meio e, mais tarde, ecoturismo, era uma maneira de vivermos nosso sonho e o compartilharmos com outras pessoas.

Assim se passaram mais dez anos viajando, explorando, se divertindo muito, conhecendo novos locais pouco explorados na época, conhecendo culturas e pessoas… aprendendo!

Alguns estudantes que viajavam com a escola se encantavam e queriam mais. Nas férias, ao invés de acampamentos ou viagens tradicionais, eles nos procuravam em busca de novas aventuras em contato com a natureza. Queriam aventura, diversão, exploração… conhecer e compreender a natureza! Os estudos do meio deram origem às viagens de ecoturismo com adolescentes!

Pantanal mato-grossense, Parque Natural do Colégio do Caraça, Parque Nacional das Emas, Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, Cavernas do Petar… O Brasil todo era uma grande sala de aula! Em uma época na qual esse tipo de viagem ainda era pouco frequente viajei muito!

A aventura era importante? Sim. Mas muito mais que isso era o aprendizado sobre como “funciona a natureza em cada lugar”.

Qual é a vegetação típica? Quais são os animais que vivem aqui? Onde vivem? De que se alimentam? Que outros elementos formam sua teia alimentar? O que enxergamos no céu noturno? O que é aquela bruma que sai do rio ao amanhecer?

Cada segundo da viagem era um momento de aprendizagem sobre nosso planeta.

Essa foi uma época de grande aprendizado em minha vida! Aprendi História Natural em campo, vivenciando os mais diversos fenômenos naturais na companhia de guias locais, monitores e guias de ecoturismo com formação variada (biólogos, geólogos, geógrafos, historiadores… curiosos). Cada noite era uma roda de conversa discutindo o que havia acontecido durante o dia!

Algum tempo depois, quando ingressei na sala de aula, trouxe comigo esse conhecimento e vivência. Aprender era muito mais significativo quando partia da busca por respostas a dúvidas reais e pessoais!

Dar aulas de Ciências da Natureza tornou-se uma maneira de explorar, investigar e compartilhar ainda mais meu próprio sonho! Agora tinha diante de mim dezenas de alunos e um currículo cujo conteúdo era exatamente o que eu buscava nas viagens.

Quando, muitas vezes, me perguntavam o que mais gostava em ser biólogo / naturalista / professor de Ciências a resposta era fácil: “- Gosto de conhecer e compreender o que ocorre ao meu redor quando estou em qualquer lugar”.

Um curso de Ciências da Natureza deve ser um verdadeiro manual de instruções do mundo!

Ele precisa contribuir para que o aluno “compreenda o mundo, explique-o, preveja acontecimentos naturais (quando possível) e, se necessário, saiba como intervir de forma responsável e inteligente”.

O pensamento científico é uma forma organizada de pensar que permite identificar ou elaborar perguntas a serem investigadas, planejar e conduzir investigações, obter dados, tratá-los, elaborar conclusões, argumentar baseado em evidências… tomar decisões adequadas baseado nas conclusões.

Como fazer tudo isso?

Penso que acima de tudo está o despertar do interesse da criança pelo mundo em que vive, pelos elementos vivos e não vivos que constituem o planeta, pelos fenômenos naturais que ocorrem a todo instante, pelos enigmas do Universo, pelas perguntas ainda não respondidas, pelas coisas mais simples que estão diante de nossos olhos.

É preciso colocá-la em contato com tudo isso! É preciso mostrar a elas o que existe ao seu redor e é muitas vezes ignorado!

Tudo começa com um treinamento dos sentidos para identificar os elementos que formam o ambiente em que estamos. Muito mais que usar apenas a visão, é preciso sentir cada estímulo que ambiente nos traz usando todos os sentidos e interpretá-lo.

É preciso contemplar atentamente o mundo! A contemplação certamente leva ao surgimento de perguntas que pedirão respostas.

A partir do momento do despertar do interesse vem a capacitação para investigar e buscar a resposta. Diferentes habilidades precisam ser desenvolvidas, treinadas, aperfeiçoadas para que a criança possa ir em busca de suas respostas com maior chance de chegar a elas: Observar, identificar, descrever, comparar, explicar, justificar, relacionar e outras. Todas elas são habilidades importantes que desempenham papel fundamental na investigação e compreensão dos fenômenos naturais.

Seja em campo, observando sem interferir, seja em laboratório, testando e manipulando variáveis em condições controladas, a observação atenta, precisa e meticulosa é essencial no ato científico em busca de respostas. Ela permite ao investigador identificar elementos que poderão levar à resposta desejada.

A prática constante dessa estrutura de pensamento leva ao desenvolvimento do olhar científico como algo cotidiano e capaz de facilitar a compreensão do mundo. Podemos não saber as respostas de imediato, mas conseguimos elaborar uma estratégia que facilita a busca pela resposta.

Como consequência o mundo se torna cada vez mais interessante. A floresta deixa de ser apenas um “amontoado de árvores”. A chuva forte no verão é uma etapa do ciclo da água na natureza. As estrelas cadentes que riscam o céu noturno são meteoritos entrando na atmosfera e sendo destruídos pelo atrito com a atmosfera. O gavião devorando um peixe é uma relação alimentar na complexa trama que chamamos de teia alimentar.

Tornamo-nos cada vez mais conscientes de nosso papel no Universo! Tornamo-nos conscientes da necessidade de preservar o equilíbrio ecológico no planeta!

Esse estado de consciência para o qual o ensino/aprendizado das Ciências da Natureza pode colaborar começa com a percepção do mundo! É preciso colocar as crianças em contato real com o objeto de estudo, estimulando-as a olhar ao redor, identificar os elementos que as rodeiam, os fenômenos que ocorrem a todo instante, relações de causa e consequência… perguntas que desejem responder!

Acredito nisso!

Como professor, espero contribuir para a formação de novas gerações capazes de lidar com os desafios inerentes ao crescimento da humanidade e promover um mundo mais equilibrado e sustentável.

Forte abraço.

Carlos Eduardo Godoy.

 

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